Lenda de Nossa Senhora do PereiroTal como as aves do céu, à procura do grãozinho da aveia ou de trigo, nós vamos, de saltito e saltito, busca do manjar lendário tão apetecido à nossa gula de tudo perscrutar.
E como elas, levantamos voo em todas as direcções, embora asas não tenhamos senão as do pensamento, na esperança de encontrarmos algo, nesse repasto, que nos explique a razão de ser das coisas e o porquê da sua existência.
O tempo, demolidor, dá-se à volúpia de sombrear os acontecimentos dos dias pretéritos. É esse o seu prazer máximo. Mas não importa A lenda é mais generosa do que o tempo e é, pela sua mão gentil de Rica-dona, que esperamos chegar até ao âmago dessas ocorrências.
Pois bem. Pisamos há dias, lugares edénicos, sítios remansosos desta região bragançana, a que o povo, romanticamente, dá-se o nome de Vale da Saudade.
E este Vale. Limitado pelas grandezas da Serra da Nogueira, forma uma bacia de verdura maneirinha e perfumada, onde assenta grácil Capela e se venera a Imagem de Nossa Senhora do Pereiro.
É curiosa a denominação sem dúvida. Porém a Lenda, está connosco. Será nossa aliada em todas as vicissitudes. E, após um mergulho nas águas do passado, emergimos com dados suficientes para tudo explicar.
A povoação de Santa Comba de Rossas, para nós das mais atraentes do concelho pela sua vegetação luxuriante, panoramas vastos e, ainda, pelo seu todo de casais isolados, metidos entre tufos de verdura, nem sempre assim foi designada, mas com maior suavidade, dando pelo nome de Santa Colomba de Rosas.
Aos pés destes casais em ascensão, estende-se desenrola-se, o Vale da Saudade.
Em anos afastados não existia Capela alguma nestas paragens. Apenas Campos de semeadura e árvores frutíferas. Ora, entre elas, uma se destacava pela abundância dos seus frutos tão apetecíveis. Era um pereiro novo. Mas de peros tão saborosos e rosados que faziam o regalo de quem por ai passava pela canícula, sedento de um pouco de frescura, e até do passaredo que os bicava com requintes de delicadeza.
E perinho bicado é uma delicia…
Muito bucolismo sim, nesses lugares. Verdadeiro vergel viçoso e colorido. Um pequenino Éden cheio de beleza.
Todavia – ai de nós os peregrinos da Terra nem mesmo, nesse cenário mimoso, a Dor deixara de introduzir as sua garras, na figura de desgraçada mulher que a esses lugares ia curtir, por vezes, seus ais de mal casada.
Era mais um farrapo a quem a Dor amarfanhara, do que propriamente uma mulher. Desfeiteada, a cada passo deprimida, secou-se a alegria em seu coração, como já haviam desaparecido as cores do seu rosto.
Por mais serviços que a desgraçada fizesse, desde o amanho da negra choupana xistosa ao labutar no campo, não tinha compensações. Parecia ter nascido para ser desprezada, e era-o com efeito, por aquele que um dia prometera, diante do Altar Sagrado, respeitá-la e protegê-la.
Dos maus tratos sabia a povoação de Santa Colomba de Rosas. Das suas lágrimas e gemidos eram confidentes esses sítios ermos, onde, mortificada pela Dor, se derreava para a terra, apanhando-lhe os frutos.
Quantas vezes tais palmos de terrado foram orvalhados pelas suas lágrimas de desditosa, a quem nem sequer fora dado o acalentar em seus braços um pequenino ser, um filho! Se o tivera…
Ah! Falta-nos dizer que, às lágrimas da mal afortunada, se juntava a oração.
-Avé Maria, Cheia de graça…
E mais logo:
-Perdoai-nos Senhor as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…
Era certo: a pobre, acabava sempre por perdoar, quer fosse injuriada por palavras quer por maus tratos corporais.
Tamanha perfeição merecera do Senhor um olhar compassivo, Sua Divina Mãe viria à Terra consolar tanta desdita, trazer um refrigério à alma tão em abandono.
Soluçava sim, a infeliz regava a terra revolvida de fresco, quando os seus olhos foram despertados por clarão súbito que parecia descer dos Céus.
Tanta luz! Tanta luz! Se nem sol havia nesse dia…
- Avé Maria, cheia de graça… Senhora! Senhora! Compadecei-vos…
E ela, a mísera envolvida em seus trapos, sentiu-se acarinhada. Qualquer coisa, como uma mão invisível, lhe passou pelo rosto, aliviando-se de penas e pesares.
Esse gesto… esse gesto… Mas podia lá ser! O nome de «Mãe!» lhe veio aos lábios. Era assim quando ela em rapariguinha, ardia em febre sobre a enxerga…
Se não fora aquela luz que a encandeava, deitava-se a ver quem era.
Das bandas do pereiro novo é que vinha tal clarão…
Já nem chorava, nem rezava. Estava atónita! Mas sentia-se bem. Aquela carícia… Tal qual como em tamanhinha e até já espigadota, a mãe lhe fazia. Mas nada. Não podia ser! Os mortos estão com Deus e debaixo da Sua Guarda. Agora dava-lhe vontade de fugir. Tinha medo de tanta luz…
Benzeu-se. É que podia ser coisa ruim. O inimigo!...
Momento a momento, aquela luz a avassalava mais. Parecia-lhe que ardia. Que o fogo se iria pegar às suas roupas. Arredou-se um pouco, não fosse queimar-se.
Tentou olhar para essas bandas de fogo. Esfregou os olhos.
Confusa, amedrontada, ela vê…ela vê…- Que vê ela? Uma Senhora… uma Senhora … e tão linda! Uma Senhora… uma Menina … com os vestidos brancos de neve… cheiinhos de sol…
- Mãe do Céu! Mãe do Céu! Dizia, não segura de si.
Naquela posição de êxtase ficaria uma vida inteira, se não fora a Virgem – pois era a Virgem! Mandá-la para o povoado. Guardou segredo daquela descida dos Céus à Terra. Da Senhora… da Menina…
Todos viam, entretanto, que algo se passara com a camponesa. Nem uma queixa dos maus tratos. Antes um ar de felicidade.
Os vizinhos comentavam:
- Bô! Inté parece que a TI Ana a pancada a faz medrar…
Mas vieram por ali umas malinas, e o marido da Ti Ana, foi-se…
Pranteou-se esta, quando todos apostavam que sentiria alívio.
Louvou o povo tanto nojo, só não atinava com a teimosia da mulher em meter pés a caminho do vale todos os dias que Deus ao Mundo deitava.
Até ali ia levar o comer. Mas agora?
Um dia, deram-se a espreitar… E que viram? Uma Luz tão intensa que correram em debandada. O Sol, não brilhava assim.
Bem na alvejaram de perguntas mas, a camponesa, caíra em mutismo tal, que interrogar uma pedra.
Pouco após e sem mais aquelas, deixara a Ti Ana Santa Colomba de Rosas.
Interrogaram-se as pessoas sobre aquela abalada. Nada apuraram, entretanto.
Quando de novo voltou ninguém a reconheceu.
Viram uma mulher com trajes de convento e que falava em mandar construir uma Ermida.
-No povoado de Santa Colomba? – Perguntaram à uma.
Perante a negativa da irmã, novas interrogações surgiram. E por certos admirados se quedaram quando, a religiosa, mostrou o desejo de construir a Capela, não no povoado, lado a lado dos casais, mas no vale.
Designado o local, logo os artistas vieram de longe. Iniciou-se a obra. Pedra após pedra, se foram formando aquelas paredes, a quem a cal daria alvura.
Ao lado, vicejava o pereiro, em pleno apogeu dos seus frutos sazonados.
A vista do pereiro começou o povo a congeminar. Pois queriam lá ver?!... Aquela mulher com vestes de freira, não era outra senão a Ti Ana. Apostavam em como seria. Mas a feitura da Capela ali, no ermo…
Supomos que a Ti Ana se deu a conhecer e tudo explicou porque, desde essa hora em diante, o povoléu deixava os casais e vinha ajudar os artífices, vindos de longe.
A Ermida ali ficou no vale e a Imagem que se fizera, segundo as indicações da religiosa, começara a ser invocada sob a designação de Nossa Senhora do Pereiro.
O povo descia em suas aflições à Capelinha, porque a Virgem, a Senhora, a Menina, que aliviara, certa vez, a mísera camponesa, continuava a ser o refúgio dos aflitos e o amparo daqueles que sofriam.
Contam ainda os mais idosos de Santa Comba de Rossas, que aos seus ouviram falar no pereiro, como sendo árvore já há muito desaparecida.
Contudo, apontam o local onde ele vicejou e o que é mais – oh maravilhas da imaginação popular! – descrevem com pormenores o tamanho e o rosado desses frutos, como doutros não há memória.
Lembram-se também – com que orgulho o repetem! – de ter escutado que certos Príncipes que muito se amavam e davam pelo nome de Pedro e Inês, estiveram na Ermida branca a implorar ventura…
E de recordação em recordação, ficamos sabendo que o povo de Santa Colomba de Rossas, chorou a morte da linda Inês que um dia viera até eles, sorridente e feliz, pelo braço do Príncipe bem-amado.
Daí, o bom povo, sempre pronto a romanceara e a pôr-se ao lado dos infelizes no amor, a designar o local, por onde Pedro e Inês passaram, de Vale da Saudade.
Gostei muito de ver o vosso blog,tanto a parte de imagens como tanbem a parte dos textos.Para alem de interessante de se ver e um bom exemplo de ke nunca e tarde pra estudar e ke no fim o esforço e sempre recompensado como um bom exemplo este vosso blog.Estao de parabens. Continuem sempre assim com esse entusiasmo.
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